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Serra Gaúcha precisa unir lideranças em torno de uma visão de futuro, defende Daniel Leipnitz na RA CIC Caxias
Publicado em 31/08/2026
A capacidade de articulação entre empresas, poder público, universidades e sociedade será determinante para a Serra Gaúcha construir seu próximo ciclo de desenvolvimento. A avaliação é do empresário, conselheiro e investidor Daniel Leipnitz, que palestrou nesta segunda-feira (31) na RA (reunião-almoço) da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul (CIC Caxias), que ocorreu em parceria com o Instituto Hélice. O evento foi conduzido pelo vice-presidente de Indústria da entidade, Oliver Viezzer, e teve como tema “Liderança empresarial e inovação territorial: o novo protagonismo do setor privado na Serra Gaúcha”.
Leipnitz utilizou a transformação econômica de Florianópolis como exemplo de como a mobilização de diferentes atores pode alterar a trajetória de um território. A capital catarinense enfrentava poucas oportunidades de empregos qualificados, limitações à industrialização e pesada e forte dependência do turismo sazonal. A mudança começou ainda nos anos 1980, quando estudantes decidiram permanecer na cidade, empreender e compartilhar conhecimento, contatos e oportunidades. Para o palestrante, a construção de confiança foi a primeira infraestrutura daquele ecossistema.
O movimento ganhou escala nas décadas seguintes. Atualmente, Florianópolis reúne cerca de 6,1 mil empresas de tecnologia, com faturamento anual na ordem de R$ 13 bilhões. Leipnitz destacou que a nova economia deu à cidade uma atividade de alto valor agregado, menos dependente da sazonalidade e capaz de exportar conhecimento e inteligência.
Ex-presidente da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate), Leipnitz afirmou que uma entidade empresarial pode ultrapassar a função de representação de interesses e atuar como plataforma de desenvolvimento territorial, conectando empresas, governos, universidades e sociedade. Em sua avaliação, essa articulação não pressupõe unanimidade, mas capacidade de estabelecer uma direção comum.
A cooperação, ressaltou, exige também superar disputas por protagonismo. Leipnitz diferenciou o que chamou de “ecossistema” e “egossistema”: no primeiro, a causa está acima da autoria; no segundo, ocorre o inverso. Para ele, um consenso em torno de 70% das questões relevantes já é suficiente para permitir que um território avance, sem que as diferenças nos demais pontos paralisem uma agenda coletiva.
Outro caso apresentado foi o Sapiens Parque, em Florianópolis, que Leipnitz presidiu entre 2021 e 2023. Durante sua gestão, mais de R$ 1 bilhão em investimentos foram atraídos e destravados. Segundo ele, o processo teve como ponto de partida a reconstrução do sentimento de pertencimento e da confiança da comunidade no projeto. O movimento teve continuidade após sua saída, com mais de R$ 1 bilhão em capital privado anunciado em um novo ciclo.
Ao voltar o olhar para a Serra Gaúcha, Leipnitz destacou que a Região parte de uma posição privilegiada, sustentada por indústria forte, capacidade de investimento, conhecimento técnico, cultura de trabalho, associativismo e identidade regional. O desafio, segundo ele, não é criar essa força, mas coordená-la para enfrentar um novo cenário econômico e tecnológico. “A pergunta não é se a Serra sabe produzir. Isso ela já demonstrou para o mundo”, afirmou.
Nesse contexto, o palestrante chamou atenção para uma mudança no conceito de competitividade. A capacidade de uma empresa atrair e reter profissionais, exemplificou, já não depende apenas de salário ou reputação corporativa. Educação, segurança, infraestrutura e qualidade de vida do território também pesam na decisão dos talentos. Por isso, defendeu que as lideranças empresariais participem da construção das condições necessárias para tornar a Região mais competitiva.
Para Leipnitz, esse protagonismo não significa substituir o poder público. “O setor privado não precisa fazer tudo. Precisa ajudar a fazer acontecer”, sintetizou. Na prática, significa mobilizar atores, estabelecer prioridades, investir, acompanhar resultados e sustentar uma agenda que tenha continuidade mesmo diante de mudanças políticas e administrativas.
O palestrante também defendeu uma agenda regional mais objetiva, com menos iniciativas dispersas e mais projetos estruturantes com responsáveis, recursos, prazos e indicadores definidos. “Sem dono, prazo, recurso e indicador, projeto não é projeto. É expectativa”, afirmou. Para ele, a próxima grande obra da Serra pode não ser uma construção física, mas a capacidade coletiva de definir um futuro e executá-lo.
CIC manifesta preocupação com a escala 6x1
Na abertura da RA, Oliver Viezzer também manifestou a preocupação da CIC Caxias com a tramitação da proposta que reduz a jornada de trabalho e prevê o fim da escala 6x1. O dirigente ressaltou que uma mudança dessa magnitude precisa considerar seus efeitos sobre emprego, produtividade, custos e competitividade das empresas. O assunto esteve entre os temas debatidos no 4º Seminário de Relações do Trabalho, promovido pela entidade na sexta-feira (28), quando especialistas apresentaram possíveis repercussões das alterações propostas.
Viezzer demonstrou indignação com a declaração do senador Omar Aziz de que “nenhum senador é louco de votar contra” a proposta. Para o vice-presidente, cabe justamente ao Senado examinar, fiscalizar, debater e aperfeiçoar as matérias submetidas à Casa, considerando seus efeitos para o País. “Senadores não foram eleitos para ser meros carimbadores de medidas porque elas têm apelo popular ou eleitoral. Foram eleitos para ter responsabilidade com o País e avaliar as consequências de cada decisão”, afirmou.
O dirigente questionou ainda o risco de decisões dessa natureza serem influenciadas pelo calendário eleitoral. “O que é mais insensato? Votar contra uma proposta e eventualmente pagar um preço eleitoral ou aprová-la sem considerar seus impactos sobre o emprego, a produtividade, a competitividade e a própria economia brasileira? Não podemos aceitar que uma mudança dessa magnitude seja decidida pelo receio de perder votos. O papel do Parlamento é olhar além da próxima eleição. É olhar para o futuro do País”, disse.
Fonte: Assessoria de Imprensa CIC Caxias, jornalista Marta Guerra Sfreddo (MTb6267)