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CIC divulga Carta Econômica
Publicado em 01/07/2014
Abaixo, a Carta Econômica elaborada pelo Conselho Temático de Economia e Finanças da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul (CIC) e mencionada pelo presidente da entidade, Carlos Heinen, em seu pronunciamento na reunião-almoço desta segunda-feira (30). O documento contém análise, avaliação e prospecção de questões referentes às áreas econômica e financeira em nível mundial, nacional, estadual e local.
CIC -CÂMARA DE INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS DE CAXIAS DO SUL
Conselho Temático de Economia e Finanças
CARTA ECONÔMICA
01/2014
Dentro das atribuições que lhe conferem os seus Estatutos, o Conselho Temático de Economia e Finanças da CIC vem realizando atividades relativas à análise, avaliação e prospecção das questões concernentes às áreas econômica e financeira em nível mundial, nacional, estadual e local, de modo a auxiliar as decisões da Presidência da entidade nestas áreas. Até este momento, tais trabalhos e suas conclusões ficavam restritos à mesma. Porém, dado o caráter relevante de tais trabalhos para a área empresarial, decorrente da larga experiência e conhecimento dos Conselheiros (*), a Presidência desta casa determinou recentemente que os resultados deste trabalho também fossem divulgados, de forma condensada, para os associados da entidade, autoridades, lideranças e mídia sempre que necessário e/ou conveniente. Esta é a primeira manifestação do Conselho neste novo formato.
A evolução da situação econômico-financeira tem sido motivo de atenção por parte do Conselho. Em nível mundial, a situação vem melhorando gradativamente. Embora tenha sido reduzido à metade em relação à década passada, o crescimento do PIB chinês na faixa dos 7 % ao ano, o crescimento da maior economia do mundo, os EUA, de 3%, assim como de alguns outros países de relevância em nível mundial e continental no intervalo entre os dois, e a lenta recuperação da Europa, levam a crer que o cenário mundial é moderadamente otimista.
Já em nível nacional a situação é menos otimista. As previsões para a economia brasileira vêm decaindo ao longo do tempo. De números inicialmente na faixa de 4% a 4,5% de crescimento do PIB para 2014, as projeções mais recentes se situam na faixa de 1,6% a 1,8%, inferior ao da maioria dos países.
O fato é que a economia no Brasil vem apresentando vulnerabilidades crescentes, que têm recebido críticas diversas, de dentro e de fora do país, o que vem gerando um clima de incertezas maiores sobre os rumos futuros da economia. (Nota 1)
O modelo de consumo adotado nos últimos anos pelo governo para estimular a economia é considerado esgotado, agravado pela retirada constante dos incentivos anteriormente concedidos, pelo aumento dos juros, pela elevação da carga tributária e pela inflação. O volume de investimentos necessários para manter um crescimento razoável, principalmente pelo governo, não vem sendo realizado. Como consequência, os desequilíbrios vêm se tornando cada vez maiores. Este quadro mostra uma contínua corrosão da economia em curto prazo, sem perspectivas imediatas de uma reversão. Embora não se preveja uma ruptura no curto prazo, as ameaças vêm aumentando, levando a perspectivas pouco otimistas, como os possíveis aumentos nas tarifas da energia elétrica e dos combustíveis, entre outros, com provável aumento maior nos índices de inflação. Na área externa, o aumento do déficit em conta corrente preocupa, já superando os US$ 80 bilhões anuais (Nota 2), não sendo mais coberto pelo IED (Investimento Estrangeiro Direto), (mesmo este tendo se mantido em níveis razoáveis, em torno dos US$ 61 bilhões (Nota 3), fato que não ocorria há vários anos.
Graças ao bom desempenho do setor agrícola, a situação nacional (e também a estadual) não é ainda mais grave. Porém, os demais setores vêm sofrendo bastante, especialmente a indústria (Nota 4) e o comércio, inclusive aqui no estado. No setor automotivo, por exemplo, particularmente de veículos comerciais (caminhões, semirreboques, ônibus), que é o que mais interessa a Caxias do Sul, a previsão é de um recuo em nível nacional entre 10% e 15% para este ano em relação ao ano passado. Assim a economia de Caxias do Sul será certamente afetada por esta queda neste ano (os números do desempenho econômico local até abril já sinalizam esta perspectiva, com uma queda de 4,1% em relação a 2013). Embora a produção destes veículos tenha sido beneficiada em 2013 por uma série de fatores positivos, que elevaram a produção a um nível acima do "normal", e como estes fatores não deverão se repetir este ano, não é de se esperar a manutenção do patamar do ano passado, a menos que a economia nacional crescesse aceleradamente acima do índice atual, o que não é o nosso caso, pelas razões acima expostas.
Acrescente-se a este cenário a existência de certa instabilidade política, que pode se agravar, dependendo dos resultados da Copa. E isso pode também gerar instabilidade na economia.
É oportuno lembrar que Caxias do Sul é uma economia dinâmica, que vende para fora da sua região cerca de 90% do que aqui produz, e que, portanto, é bastante afetada pelo desempenho da economia nacional e estadual. Quando a economia nacional cresce, Caxias cresce mais; e cresce menos (ou cai) quando o Brasil cresce pouco, como agora. É preciso ressaltar também que Caxias depende fundamentalmente da sua competitividade para crescer e se desenvolver, e até mesmo para sobreviver como economia. Neste sentido, é preocupante verificar que a competitividade das empresas locais vem caindo sistematicamente ao longo dos anos, apesar dos esforços das empresas para melhorá-la. Os salários em Caxias, por exemplo, são dos mais elevados do estado e do país. Tão preocupante, também, é o pouco apoio governamental para a economia local, em infraestrutura, logística e outros.
Cabe, portanto, o alerta deste Conselho para que as empresas adotem uma postura cautelosa em face do quadro de incertezas e dificuldades que vem se desenhando, e que poderá se agravar.
Notas:
(1) O risco de racionamento é outro fator que alimenta as incertezas, contribui para o clima de pessimismo e deprime o investimento privado.
(2) O comércio internacional vem perdendo seu dinamismo em escala global. As exportações no período janeiro/maio apresentaram queda de (-2,9%). O saldo comercial deste ano deverá ser modesto (cerca de US$ 3 bilhões), refletindo a queda simultânea das exportações e das importações. A retração da demanda interna não deverá ser compensada pelas exportações. A contração das importações, por sua vez, constitui-se em outra indicação da fragilidade do mercado interno.
(3) A estimativa de que o IED permaneça na faixa dos US$ 60 bilhões anuais, na contramão da crise de confiança, pode ser um indicativo de que o pessimismo de curto prazo pode não ter ainda contaminado inteiramente as empresas multinacionais, que mantêm sua aposta no Brasil. Pode também ser decorrente das pressões exercidas sobre o governo, que tem efetuado a privatização de algumas concessões inclusive com a participação de empresas estrangeiras, que aportam capital externo para esta finalidade.
(4) O resultado negativo da indústria foi liderado por bens duráveis e bens de capital. Reflete o esgotamento do modelo baseado na alavancagem do crédito e a paralisação dos planos de investimentos em reação à onda de incertezas.
(*) Conselheiros - Nominata:
Astor Milton Schmitt - Diretor-presidente da AMJD Consulting Administração e Participações Ltda
Alexander Messias - Diretor da CEEM FGV
Carlos Zignani - Diretor Corporativo e de Relações com o Mercado da Marcopolo S.A
Fábio Abreu de Paula - PwC Partner
João Luis Borsoi - Ex-presidente do Conselho Deliberativo da CIC
Joarez J. Piccinini - Diretor Superintendente do Banco Randon S.A
Maria Carolina R. Gullo - Diretora Geral do Centro de Economia, Estudos Contábeis e Comércio Exterior da Universidade de Caxias do Sul
Mauro Corsetti - Diretor-Gerente da COPAR - Empreendimentos e Participações Ltda.
Fonte: Assessoria de Imprensa da CIC