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Acordo Mercosul–União Europeia exige revisão estratégica das empresas, afirma especialista em RA da CIC Caxias

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Publicado em 02/03/2026

Para Gabriel Martins, acordo em fase de ratificação já altera decisões das empresas - Foto: Júlio Soares/Objetiva
Para Gabriel Martins, acordo em fase de ratificação já altera decisões das empresas - Foto: Júlio Soares/Objetiva

O estágio atual do Acordo Mercosul–União Europeia, os impactos sobre tarifas e cadeias produtivas e as decisões que precisam ser antecipadas pelas empresas foram tema da RA (reunião-almoço) da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul (CIC Caxias) realizada nesta segunda-feira (2). A palestra foi conduzida por Gabriel Martins, diretor sênior de Trade & Customs da Alvarez & Marsal Brasil.

Martins apresentou um panorama técnico do acordo e afirmou que, embora o tratado ainda não esteja em vigor, seus efeitos já começaram a influenciar decisões empresariais. Conforme detalhou, o acordo comercial já foi assinado e o texto técnico está concluído, e o bloco econômico envolvido representa um PIB superior a US$ 22 trilhões. No momento, o processo está na fase de ratificação pelos países da União Europeia e do Mercosul, além da discussão sobre eventual vigência provisória, com avanços esperados ao longo de 2026.

Segundo o palestrante, o período de transição será determinante. “O acordo redefine o referencial competitivo entre empresas do Rio Grande do Sul e parceiros europeus”, apontou, destacando que decisões sobre cadeia produtiva, origem de insumos e investimentos precisam ser avaliadas antes da entrada em vigor formal.

A desgravação tarifária ocorrerá conforme cronogramas específicos anexos ao acordo, com produtos distribuídos em cestas de tempo de 0, 4, 7, 10 e até 15 anos. A União Europeia eliminará tarifas sobre mais de 90% das importações oriundas do Mercosul em até aproximadamente dez anos. Já o Mercosul terá prazos mais longos, que podem chegar a 15 anos para bens industriais europeus.

Martins exemplificou como se dará a redução gradual de alíquotas em setores como automóveis (35%), máquinas (20%), vinho (18%) e café solúvel (14,4%), demonstrando que a queda é previsível e escalonada ao longo do tempo. Destacou que um dos principais erros das empresas é aguardar a tarifa zerar para agir. No caso de importadores de máquinas, por exemplo, a curva tarifária previsível até zero em dez anos altera desde já decisões sobre Capex (do inglês Capital Expenditure) e renegociação de contratos.

De acordo com Martins, o acordo desloca o debate do campo exclusivamente tributário para o estratégico. Compras e supply chain passam a ter papel central, com reavaliação de fornecedores para capturar benefícios tarifários e redesenho das cadeias para cumprimento das regras de origem.

O preço deixa de ser neutro, e a origem do produto passa a influenciar diretamente a formação de custos, afirmou ele. Conforme explicou, produtos europeus tendem a ingressar gradualmente no mercado brasileiro com menor carga tributária, pressionando preços e margens da indústria local.

Entre as medidas sugeridas pelo palestrante estão a simulação das curvas tarifárias por produto, a renegociação antecipada de contratos, a revisão de fornecedores fora da União Europeia e a adequação dos sistemas internos para lidar com tarifas dinâmicas.

O acordo exigirá a implementação de novos processos para comprovação de origem e compliance contínuo, além da customização de cadeias, contratos e modelos operacionais. O cenário inclui cronogramas longos, regras técnicas específicas e um ambiente geopolítico mais fragmentado. “A vantagem competitiva depende da preparação antecipada, não da data de entrada em vigor do tratado”, reforçou.

O presidente da CIC Caxias, Ubiratã Rezler, destacou preocupações com os desafios que o acordo pode impor ao setor produtivo brasileiro, em especial na Serra Gaúcha, ponderando sobre a necessidade de as empresas adequarem produtos, parcerias e a sua própria organização interna. Entre os pontos levantados, ressaltou a necessidade de o governo brasileiro promover condições estruturais de competitividade, especialmente diante das diferenças geográficas e de custo em relação aos demais parceiros, para que o País não seja ameaçado pela concorrência europeia.

Fonte: Assessoria de Imprensa CIC Caxias - Jornalista Marta Guerra Sfreddo (MTb6267)

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